Todos os tempos novos tendem a invocar os instintos velhos. Seja em guerra ou em pandemia, o instinto de sobrevivência é ativado e os valores elementares da sociedade são objeto de revisão inconsciente. Sabemos, e as ciências sociais o mostram, que a sociedade é, sobretudo, movida pelo conflito. É no seio deste que se produz as mais ou menos duradouras alianças, um mecanismo de contrapeso sociológico e político. Já o afirmavam, também, os pensadores modernos, como Hobbes, que defendia que o estado de “guerra” (aqui inclui aquilo que chamamos de conflito) é o modus vivendi do ser humano. Ora, a única forma de travar esse estado “natural” da humanidade seria por via do “contrato”, em que nos dispúnhamos a observar um conjunto de leis que ordenam a sociedade.

O problema é que só estamos disponíveis para combinar o mútuo respeito quando não sentimos a nossa vida ameaçada. O “medo” não é um produtor da democracia, a história tem mostrado. A liberdade não é um valor absoluto, e diante da ameaça e desconfiança, as pessoas abrem mão da liberdade em troca de segurança e conforto, confiando em opções políticas não-democráticas.

Os tempos já eram de intimação às fundações da democracia, com a emergência de soluções simplistas de pendor populista-nacionalista, que se ofereciam para resolver problemas, nem sempre existentes, mas percecionados como reais, como a criminalidade e a imigração. Com a pandemia do Coronavírus, a desconfiança e o medo são produto de um fator real. Todos podem ser portadores do vírus, logo todos constituem ameaça mútua.

Há poucas semanas fomos confrontados com as mensagens deixadas a profissionais de saúde e de superfícies comerciais pelos seus vizinhos, em Espanha, pedindo que encontrem outro lugar para morar. Há, de facto, uma questão sanitária neste assunto, mas não é apenas a do vírus, é a da sociedade enquanto contrato. A partir da ótica do medo e do estigma social, a situação pandémica vigente apresenta semelhanças com a situação vivida pelos judeus na antecâmara do nazismo: pessoas indesejáveis, vistas como transportando com elas uma toxicidade qualquer, um vírus que infetaria os lugares onde moravam.

O medo social do “outro” tem este caldo histórico de estigma racial e etnológico. É o vírus que veio do “estrangeiro”, particularmente da China, terra do comunismo, essa ameaça vermelha do tempo da “guerra fria” e do mundo bipolar, novamente recuperada ao sabor do que chamaria de nacionais-saudosismos, i.e., revivalismos políticos nacionalistas, securitaristas, que terão no rescaldo da pandemia terreno fértil. Sabendo que as classes sociais mais permeáveis à adesão a estes movimentos políticos são as mais fragilizadas economicamente, o Covid-19 será, também, o vírus dos esquecidos. Da mesma forma que o período que sucedeu à crise de 2008 permitiu que tais movimentos fizessem eco dos descamisados da globalização, a crise pandémica, se não for devidamente enfrentada com mecanismos internacionais de cooperação e auxílio económico de uma envergadura e tato maior, poderá fazer com que a democracia enquanto sistema político saia profundamente fragilizada, podendo colocar em causa o arranjo parlamentar e a governabilidade, em particular nos países economicamente mais frágeis, como Portugal.

 

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