Discursando na abertura da 75ª edição da Assembleia Geral das Nações Unidas, Jair Messias Bolsonaro, presidente brasileiro, procurou chamar à atenção para aquilo que ele acredita ser um fenómeno em crescendo: o da cristofobia. Apesar das perseguições aos cristãos ser uma realidade em vários lugares do globo, atingindo cerca de 260 milhões de pessoas (de acordo com o relatório da ONG Open Doors), o Brasil não figura entre os países onde esse fenómeno é uma realidade. Muito pelo contrário. O crescimento exponencial da população evangélica no Brasil, em alguns lugares à taxa de 100%, tem trazido inúmeros problemas de atropelos à liberdade e dignidade religiosas, num país teoricamente laico, mas vertiginosamente teocrático. A taxa de denúncias por violência, perseguição ou discriminação religiosa tem aumentado significativamente, e apesar das religiões designadas por “afro-brasileiras” comporem apenas 1% da população total (estes valores são sobre filiação declarada, o que comporta uma significativa margem de erro), elas são os principais alvos de ataques. Estes ataques são praticados, quase exclusivamente, por elementos evangélicos, incentivados por um doutrina de «combate espiritual» que postula a existência de uma guerra entre o “bem” e o “mal” e, assim, a necessidade de erradicação das religiões originadas da presença escrava africana no Brasil, as quais constituir-se-iam como cultos “demoníacos”.

Esse combate espiritual não é um fenómeno social sem implicações políticas. É preciso levar em conta que inúmeros políticos evangélicos foram eleitos nessa condição, quer para o Senado – onde existe a bancada evangélica –, quer para a Câmara de Deputados, quer para prefeituras e posições de vereação. A leitura da Bíblia em plenários nas prefeituras é uma realidade num país a braços com um problema de separação entre poder político e poder religioso. O próprio Bolsonaro, apesar de se declarar católico, foi ungido pelos mais relevantes pastores evangélicos, os quais fizeram determinantes endorsements que permitiram a sua eleição.

Assim, a narrativa da “cristofobia” tem uma dimensão ideológica que se inscreve no “ar do tempo” que respiramos. Embora não possua qualquer nexo com a realidade brasileira, esta narrativa ideológica permite reforçar o sentimento coletivo das populações evangélicas, canalizando-as para um combate que vai além do espiritual para se concentrar no político. É uma estratégia eleitoral que permitirá a Bolsonaro reeleger-se em 2022. Mas é, também, mais do que isso. É o traçar de uma fronteira social cada vez mais profunda. Ao defender uma “cristofobia” que não existe, Bolsonaro e os seus ideólogos convocam a consolidação de fações, de um lado os evangélicos e conservadores, do outro os seus inimigos, representantes do “marxismo cultural”, uma ideologia que apenas existe no imaginário da extrema-direita ocidental, que propaga o medo de uma suposta agenda de esquerda que pretenderia impor a homossexualidade e a “teoria de género”. Este tipo de discurso encontramo-lo nos Estados Unidos e em vários países europeus, através de partidos nacional-populistas, com agendas conservadoras e de restrições às liberdades individuais.

A “cristofobia” de Bolsonaro é a arma-de-arremesso que faltava para lançar o Brasil numa cruzada, num país onde milícias e exércitos cristãos são já uma realidade plena. A Igreja Católica, também ela vítima de ataques evangélicos, vem perdendo a sua “voz” pública, ao mesmo tempo que se recusa a alinhar-se pela liberdade religiosa ao lado das minorias perseguidas. Esta reciclada forma de fazer política, oriunda dos anos de 1920, parece assentar na frase de Randy Pausch: “No matter how bad things are, you can always make things worse”.

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