O maior paradigma do governo de Jair Bolsonaro é o da autoproclamação como “governo sem ideologia”. Sabendo-o decalcado da esteira ideológica de Donald Trump, por via de Olavo de Carvalho, filósofo residente nos Estados Unidos e considerado o “ideólogo de Bolsonaro”, o homem que se orgulha de ter feito a direita brasileira “sair do armário”, e Ernesto Fraga Araújo, responsável pelo Departamento de Estados Unidos, Canadá e Assuntos Interamericanos do Itamaraty, um trumpista convicto e defensor dos ideais da extrema-direita, e Ricardo Vélez Rodríguez, ministro da educação e teólogo, o governo de Bolsonaro é, com efeito, ultraideológico.

Mas, onde está o problema da ideologia? Com o regresso da bipolarização das relações internacionais dos anos de 1980, com uma recomposição da Guerra Fria agora ao nível dos mercados e dos recursos como o petróleo, movimentações políticas que se jogam, hoje, na Venezuela, a ideologia passou a operar, em certas franjas políticas e sociais, como uma categoria classificatória negativa. Contudo, é precisamente a perceção de que o espetro político ao centro, na Europa, se esvaziou de princípios ideológicos para poder permanecer dentro daquilo que chamamos de “arco de governação” que tem permitido o crescimento de movimentos e partidos políticos nos extremos, com maior enfoque na extrema-direita. Em rigor, um governo ou partido político ausente de ideologia produz o mesmo efeito que um pombal sem porta. A ideologia existe para demarcar, claramente, as fronteiras de pensamento de determinado ator político, seja individual seja coletivo.

Qual é, então, o problema com a «ideologia» no governo Bolsonaro? No contexto político-social brasileiro vigente, o termo ideologia comporta uma dimensão muito específica, fruto da transposição da América conservadora à classe média e média-alta brasileiras, e que se prende, especificamente, com as agendas ditas de “esquerda”, como sejam, o racismo ou os direitos lgbti. No caso do Brasil, tanto a questão racial quanto a questão lgbti confrontam a narrativa brasileira da pluralidade, expondo de forma muito evidente como o Brasil jamais resolveu a questão da inclusão dos negros na sociedade e o conservadorismo profundo de um país onde que tem a maior comunidade lgbti do Ocidente e a maior taxa de violência sobre a mesma, índice ao qual se junta a violência sobre as mulheres. Ora, no governo de Bolsonaro encontramos o racismo, a homofobia e a misoginia plasmadas como programa ideológico. Mais, a reboque do republicanismo trumpista e da extrema-direita europeia, e fermentado no caldeirão da poderosa franja evangélica, o governo Bolsonaro pretende combater uma tal de “ideologia de género”, uma espécie de conspiração mundial da “esquerda” para converter todas as crianças do mundo à homossexualidade. A histeria coletiva em torno da questão da sexualidade, tornando-a agenda ideológica deste governo, está patente nas afirmações de Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, de queturistas viajam para o Brasil para fazer sexo com animais, ou de que na Holanda os pais masturbam os bebés a partir dos sete meses de idade. A agenda parece evidente: demonizando tudo ao redor é possível construir uma ideia de Brasil como reino de Deus na terra.

A escola sem partido, mas com slogan

Neste quadro de combate à ideologia, que traduz, percebe-se, um combate à ideologia das pluralidades própria da “esquerda”, que na prática seria o combate ao socialismo, e assim ao legado do Partido dos Trabalhadores (PT), surgiu o projeto “escola sem partido”. Sob a promessa de combater a doutrinação nas escolas, promovendo a livre consciência dos alunos, o projeto visa, com efeito, a erradicação de professores e valores socialistas, fomentando a perseguição política e, ao abrigo da purificação ideológica, preparar terreno para a doutrinação inversa: a da extrema-direita evangélica, com o amor e obediência à pátria e a sujeição à Bíblia. No fundo, o projeto “escola sem partido” traduz a ideia de escola sem umpartido: o PT. Dúvidas houvessem sobre o que o projeto traduz, o Ministério da Educação (MEC) deu ordens para que nas escolas as crianças cantassem o hino nacional e fosse declarado o slogan da campanha de Jair Bolsonaro: “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos.”, sendo que o momento deveria ser filmado e enviado para o ministério (decisão, entretanto, revogada por motivos técnicos, ou seja, legais) a fim de permitir a divulgação ao abrigo do programa de doutrinação em curso.

Compreende-se, portanto, que a reboque de um suposto perigo vermelho, que transporta aspetos polutos para a sociedade, como a “ideologia de género”, o Brasil

DA ESCOLA SEM PARTIDO À ESCOLA COM SLOGAN

enfatizar, através da eleição de Bolsonaro, a agenda da extrema-direita, com as particularidades brasileiras do puritanismo evangélico.

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