Não obstante o longo trajeto das lutas dos movimentos afrodescendentes – os quais apresentam diferentes orientações ideológicas (desde os clubes que pretendiam provar a condição moral dos “negros” às reivindicações sobre a terra), sentidos programáticos e características geográficas –, os efeitos políticos, sociais e identitários configuram conquistas significativas. Depois do silenciamento racial que se verificou no pós-abolição, as políticas de branqueamento falhadas dos governos latino-americanos e o mito da democracia racial, impuseram arramas para o debate sobre as condições de invisibilidade e marginalidade dos afrodescendentes nas várias geografias latino-americanas. O caminho foi aberto pelos movimentos negros. Contra uma branquitude social e política, que imaginava que o silêncio negro forçado como uma aceitação, os movimentos afrodescendentes souberam impor as suas agendas, trazendo a público as várias marginalizações de que as comunidades eram alvo. Através de jornais, partidos políticos, movimentos, os afro-latino-americanos reivindicaram o seu lugar na sociedade e a sua voz ativa. A forma multifacetada que apresentaram e apresentam – que serviu de crítica- é, na verdade, uma expressão da diversidade de pensamento e de reivindicações, tanto ligadas a políticas de afirmação, quanto a políticas educativas, de inserção e condições de sustentabilidade rurais, por via das comunidades remanescentes de agrupamentos quilombolas, cimarronas e similares. Nesse quadro de luta, é impossível negligenciar a luta particular das mulheres negras, por via dos seus ativismos negros e de feministas negras, contra um sistema social patriarcal e racista e, ao mesmo tempo, contra a dominação masculina dos clubes, partidos e movimentos negros.

A partir da Conferência de Durban, e em decorrência do crescimento mediático e social dos movimentos afrodescendentes, verificou-se uma mudança no paradigma política na América Latina, com enorme destaque para o Brasil, mas também sem esquecer a Colômbia, com a introdução de questões raciais no discurso político dominante e institucional, e com isso a adoção de política públicas de afirmação e inclusão social e reparação histórica, como o ensino da história e cultura afrodescendente no Brasil e as cotas raciais nas universidades.

Nesse sentido, podemos fazer uma avaliação positiva do longo e árduo trajeto dos movimentos afrodescendentes na América Latina, desde as rebeliões contra o sistema escravista até à reivindicação de direitos em plena democracia.

EM REFERÊNCIA AO CASO BRASILEIRO, o governo de Jair Bolsonaro representa, do ponto de vista ideológico e programático, a inversão da história das lutas da militância negra, LGBTI, feminista e das minorias religiosas. Embasado numa nostalgia da ditadura militar e na teocracia evangélica, o governo de Bolsonaro retoma os princípios ultraconservadores do silenciamento racial, com efeitos gravosos na sociedade brasileira, ao reverter conquistas sociais que permitiram a mobilidade ascendente, a capacitação, o empoderamento e a liberdade de afirmação identitária das comunidades afrodescendentes (entre outras). Tendo presente a intersecionalidade entre raça, género e condição social, o governo Bolsonaro realinha a sociedade brasileira antes do governo de Fernando Henrique Cardoso, trazendo de volta o fosso e a demarcação das fronteiras sociais em termos raciais e, consequentemente, de classe, reavivando o primado da “Casa Grande e Senzala”. Sinaliza essa volta o crescimento da perseguição às comunidades-terreiro de religiões afro-brasileiras, espaços de resistência e ressignificação da identidade africana no Brasil.

Assim, creio que os maiores desafios internos dos movimentos afrodescendentes sejam, por um lado, a sobrevivência dos mesmos diante de um recrudescimento do nacionalismo de feição populista e autoritária, que possui um imaginário de “nação” sobretudo branca-europeia; do outro, conseguir continuar a mobilizar novas gerações de afrodescendentes diante um processo que chamaria de «hipnose ideológica», i.e., da adesão de pessoas afrodescendentes a narrativas nacionalistas e de branquitude; e, por fim, a capacidade de não perder as conquistas alcançadas, mas ao mesmo tempo se atualizar com as questões que a sociedade vai impondo, sem, contudo, se radicalizar, como é o caso do movimento “branco não tem santo”, que advoga a expulsão e proibição da presença de brancos nas religiões afro-brasileiras, em particular nas mais fortemente identificadas com a negritude e a africanidade.

{texto elaborado para Forum de formação da Universidade de Harvard}

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