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Vivemos uma intelectualização da Esquerda – desde fenómenos como o Maio de 68 – que se assume como uma consciencialização burguesa, de natureza inclusiva e reparadora dos vícios e exclusões da história. Mas por ser uma consciencialização burguesa é feita nos termos das ciências sociais, num quadro de  linguagem que fala sobre as pessoas, mas não para as pessoas. Ou seja, traduz, interpreta e teoriza sobre os fenómenos sociais, permitindo um debate sobre intersecionalidades entre raça, género, grau de escolaridade, orientação sexual, condição económica, e exclusão social, que são consumidos dentro da academia. É verdade que o resultado dessas reflexões legítima e incentiva as transformações sociais, como a conquista de direitos para minorias e o empoderamento feminino, muito graças ao facto dessa burguesia de esquerda já integrar essa diversidade.

Todavia, o resultado desse labor intelectual tem sido, repito, o de falar sobre as pessoas e não para as pessoas. Quando muito, observa-se um discurso para dentro. Mas essa compreensão dos fenómenos sociais (como o paternalismo, o racismo sistémico, a ideologia lusotropicalista no quadro português, entre outros) de pouco serve se não há uma disponibilidade para os explicar à sociedade numa linguagem compreensível. E isto é um problema de elitismo, de classismo intelectual – a presunção de que a evidência dos factos sociais é por todos compreensível nos mesmos termos. Em rigor, isto é a meritocracia intelectual.

É nesse vazio deixado por essa intelectualização burguesa da esquerda que cresce o populismo, porque este fala para as pessoas, nos seus termos, alimentando os preconceitos que a esquerda não se dispõe a desconstruir junto dos descamisados da globalização.

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