A COMPLEXIDADE DO COMPLEXO

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A simplificação dos problemas é um artifício populista, uma vez que visa tornar linear questões complexas, apontando uma causa ou explicação única. Conhecemos isto no populismo de direita, com a colocação dos políticos como corruptos e os imigrantes como criminosos. Mas existe igualmente à esquerda, com a mesma ideia sobre os políticos ou sobre o orçamento de Estado como um saco sem fundo.
Há um tema para o qual tanto a esquerda quanto a direita apresentam visões simplistas, que é a globalização e o passado colonial. O colonialismo representa um momento histórico vergonhoso para a Europa e Portugal não passa ao lado. O colonialismo benemérito português é um mito do Estado Novo que soube perdurar para afagar o que Jorge Vale (2021) chama de «autoestima nacional». É por isso que a descolonização cultural é um processo urgente, implicando reconhecer o lado negativo e destruir de culturas gerado pelo colonialismo, retirando-lhe, assim, a sacralização ideológica. Em sentido contrário, impõe-se um recuo numa visão extremada do olhar descolonial, marcado pelo excessivo peso dos valores presentes. A história é o estudo do Homem no seu tempo e assim deve ser. É verdade que o colonialismo atravessa o humanismo e o humanitarismo jurídico, correntes que tinham uma visão crítica do colonialismo e favorável à autodeterminação dos povos. Todavia, elas conviviam com o racismo biológico, cultural e religioso e o determinismo racial, crenças “científicas” que postulavam uma hierarquia racial e um evolucionismo civilizacional.

Em segundo lugar, sabemos que estruturas coloniais foram preservadas até hoje, através do enraizamento cultural ocidental nos países colonizados e por meio de mecanismos políticos e económicos que permitem uma prevalência dos países europeus nesses territórios. No entanto, olhar a globalização como um processo neocolonial (Christian 2019) euro-ocidental é um vício de culpabilização eterna, dado que (i) a globalização dos mercados e da indústria resultou, em grande medida, das rondas negociais internacionais e de uma conceção assistencialista que visou auxiliar os países em desenvolvimento e subdesenvolvidos através da abertura das fronteiras ocidentais ao comércio de produtos oriundos desses países, inclusive com custos para a produção interna dos mesmos, e (ii) o peso chinês em África configura um processo neocolonial muito mais evidente, mas desconsiderado sobre o programa ideológico de culpa ocidental.

Em terceiro lugar, no arrasto ideológico descolonial vem a formulação da “apropriação cultural”, um processo através do qual os sujeitos brancos se apropriam indevidamente da cultura alheia. Esta proposta teórico-ideológica tem a virtude de salientar, por exemplo, fenómenos de descaracterização e exotização cultural, que esvaziam de significadoe elementos culturais locais para os tornar exteriores, estéticos. Mas, por outro lado, tem o vício de tornar a cultura um elemento tanto exclusivo quanto imutável, não percebendo que, apesar de tudo, o Ocidente permanece como um lugar onde juridicamente se garante a diferença, e se celebra o multiculturalismo, onde convivem povos culturalmente diversos, religiões várias, sob garantias que não decorrem noutros lugares. Somente no Ocidente é possível almoçar chinês, à tarde ir a celebração hindu, à noite ir a uma festa africana e estudar filosofia oriental.

É, pois, por isso, que nem o radicalismo nacionalista monista cultural de direita nem a descolonização puritanista de esquerda são soluções democráticas, porque jogam num campo de autoridade, legitimidade e exclusão.

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