Quando se silencia a questão étnico-racial dos censos (e o mesmo pode ser estendido, por exemplo, à questão da “orientação sexual”) o que se está a fazer é perpetuar a memória social instituída em torno de uma tipologia social imaginada.

As justificações apresentadas pelo INE para o chumbo à introdução da questão étnico-racial nos Censos de 2021 são tecnicamente aceitáveis, mas não traduzem o principal problema de fundo: a intencionalidade identitária. Ao escudar-se em questões técnicas para continuar a empurrar para o futuro uma verdadeira análise à pluralidade étnica nacional, o governo, por via do INE, prova estar arreigado, ainda, a uma memória histórica produzida ao longo de séculos no Ocidente e que teve na colonização a sua mais profunda experiência. As conceções cristãs em torno do inferno e dos cultos demoníacos encontraram em África terreno fértil para a elaboração das teorias do evolucionismo e do racismo biológico e cultural. Não é por acaso que em Portugal o 10 de junho foi, e continua a ser na cabeça de muitas pessoas, entre elas um ex-presidente da república, o “dia da raça”. A questão é que essa “raça” não é conceptualizada a partir dos cruzamentos étnicos-culturais que se deram em solo e nas colónias portuguesas e que produziram uma multiculturalidade e multietnicidade portuguesa. Pelo contrário, essa “raça” é normativa: branca e católica. Este paradigma social e cultural corresponde ao lugar de fala da dominação Portanto, quando se silencia a questão étnico-racial dos censos (e o mesmo pode ser estendido, por exemplo, à questão da “orientação sexual”) o que se está a fazer é perpetuar a memória social instituída em torno de uma tipologia social imaginada. Manter a ideologia do Portugal branco, católico, (e até heterossexual), permite preservar um ideal elaborado com tanto esmero pelo Estado Novo e que está tão bem materializado no Portugal dos Pequenitos, em Coimbra. Aferir da pluralidade étnico-racial da sociedade portuguesa é trazer ao governo um problema de fundo que se prende, por um lado, com a desconstrução da memória social, dessa identidade elaborada como ato de conservação ideológica, e por outro, ter de lidar com a necessária visibilidade de todos esses “outros” que são portugueses. Chegar à conclusão de que Portugal é feito de portugueses de muitas etnias, orientações sexuais e religiosas, é obrigar-se a confrontar memórias sociais, senso comum e muitos preconceitos e ideologias raciais. A história do racismo é uma história de políticas de invisibilização das diferenças, das múltiplas etnicidades e religiosidades. Qualquer cientista social sabe que é preciso olhar mais para as caixas de comentários dos jornais no Facebook do que para posições declaradas fora da internet para entender fenómenos sociais e políticos. Perante a importante medida de empoderamento e inclusão que representa a atribuição de 100 bolsas de estudo a jovens ciganos, tomamos contato com inúmeras reações populares, nos cafés e, claro, nos espaços de comentário mencionados. Chama a atenção a ideia de que “dão bolsas a ciganos, mas não dão a portugueses”. Esta afirmação, reproduzida com pequenas nuances, resume bem a ideia de que a identidade portuguesa ainda é imaginada no “nós” portugueses brancos e católicos e no “eles” que são todos os outros. Bem sabemos que cigano português só há um, Ricardo Quaresma, e negros portugueses são, apenas, Nani, William Carvalho, Nélson Semedo, Éder, Patrícia Mamona, entre outros atletas, quando envergam as cores de Portugal, mas somente quando ganham ou têm desempenhos elevados. Recordemos as palavras de Romelu Lukaku, avançado belga que joga pelo Manchester United, que dizia que quando marca golos é belga, quando joga mal é o negro do Congo.

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