Porque se chama de “barco de iaôs”?

Porque se chama de “barco de iaôs”?

A palavra “iaô” vem do iorubá Ìyàwó, designando “noiva” ou “noivo”, embora tenha precedência o uso para a noiva e esposa mais nova do agregado familiar iorubá. Este termo reflete a importância das relações sociais e do papel da mulher dentro da estrutura familiar iorubá, assim como a valorização da renovação e da continuidade através do casamento. Devido à influência cultural de Oió na formação na identidade iorubá e no Candomblé, o termo é usado para designar o/a noviço(a), ou seja, a pessoa que se inicia na religião, uma vez que a mesma se torna esposa da divindade. 

Quando duas ou mais pessoas são iniciadas juntas elas formam “um barco de iaô”. Mas porquê “barco”? Com efeito, a origem do termo remete, obviamente, aos barcos ou navios negreiros, que traziam os africanos escravizados para o chamado Novo Mundo. Mas como um processo de comércio de pessoas, de violência inominável e coisificação pode ser usado para descrever um ato religioso? Aqui, a ironia da reutilização de uma imagem tão dolorosa revela uma profunda camada de ressignificação cultural: transformar um símbolo de opressão em um de libertação espiritual.

A forma como eventos traumáticos são incorporados às culturas é um fenómeno interessante e que mostra a complexidade dos processos de reescrita da memória coletiva. Este aspeto é particularmente evidente na maneira como o Candomblé integra elementos da história de escravidão, não como uma recordação passiva, mas como um pilar de força e resistência. Sabemos que os africanos eram tratados como mercadoria e até ao século XX permaneceram desprovidos da totalidade dos direitos civis em muitos lugares. 

A violência escravocrata é um processo de total desenraizamento e remoção da dignidade da pessoa, correspondendo a um trauma inquestionável. Este trauma, contudo, não silencia as vozes daqueles que foram subjugados; pelo contrário, ecoa nas práticas e crenças que sobrevivem e se adaptam. Talvez a melhor forma de compreender a incorporação de tais elementos na prática religiosa, não seja a mais óbvia, i.e., da cedência ao sistema de opressão e incorporação do colonialismo. Não quer dizer que a ideia não seja válida, mas é uma teoria linear e que remove o agenciamento africano. Ao invés disso, podemos ver essa incorporação como uma afirmação de identidade e uma reafirmação da capacidade de dar novos significados às experiências vividas.

Nós sabemos duas coisas: que a escravidão foi amplamente violenta e que os africanos escravizados, da época da fundação do Candomblé, eram produto das guerras de libertação do Daomé e da jihad contra Oió. Estes contextos de conflito e resistência fornecem um pano de fundo para a compreensão da resiliência e da complexidade cultural que caracterizam as tradições afro-brasileiras. Dado que havia uma continuidade da violência, em que da guerra se passa à condição de escravizado, é possível que a adoção da terminologia de “barco” tenha ocorrido mais tarde, já que estudos de nostalgia mostram como a memória vai recompor os fatos no futuro, nas gerações que não vivenciaram o trauma do desenraizamento. Esta possibilidade sugere uma dinâmica de memória coletiva que está sempre em processo de reinterpretação e adaptação, refletindo as mudanças nas perceções e nas identidades ao longo do tempo.

Assim, a adoção da ideia de barco para o coletivo de iaôs, será uma ressignificação da memória do tráfico. Esta ressignificação não é apenas uma forma de lidar com o passado, mas também um meio de construir uma identidade coletiva que honra a resistência e a sobrevivência dos antepassados. Não podemos deixar de ter presente, que o mar era visto, entre várias culturas africanas, como um símbolo de travessia e morte, um infinito. Esta visão do mar como um limiar entre mundos ressoa com a ideia de iniciação como uma passagem, reforçando a noção de que a iniciação no Candomblé é uma jornada de transformação espiritual.

Nesse sentido, é bastante provável que à memória do tráfico de escravizados, e a forma como eram colocados lado-a-lado, se tenha associado uma ideia de travessia, uma vez que a iniciação religiosa é um ato de travessia da morte ao renascimento rituais. Esta interpretação da iniciação como uma forma de travessia espiritual destaca a capacidade da tradição do Candomblé de reimaginar e recontextualizar as experiências de dor e perda em expressões de força, comunidade e renovação espiritual.

Citação do texto: João FERREIRA DIAS, “Porque se chama de “barco de iaôs”?,” acessado a 24 Abril, 2024, in: <https://www.joaoferreiradias.net/6135/>.


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