O pensamento de Herbert Marcuse

O pensamento de Herbert Marcuse

Herbert Marcuse foi um dos pensadores mais proeminentes da Escola de Frankfurt e a sua obra abrange uma crítica profunda às estruturas sociais, políticas e económicas do capitalismo moderno. 

Em “Eros e Civilização”, Marcuse combina a teoria marxista com a psicanálise freudiana para argumentar que a sociedade capitalista reprime as potencialidades humanas de prazer e liberdade. Ele revisita a noção de Freud sobre a repressão necessária para a civilização, propondo que uma nova sociedade não repressiva poderia ser formada. Essa sociedade libertaria o Eros, permitindo a expressão das energias vitais humanas, o que levaria a uma existência não apenas menos reprimida, mas também mais feliz e produtiva.

Em “Razão e Revolução”, Marcuse explora as ideias de Hegel e Marx, defendendo que a verdadeira razão é incompatível com as condições opressivas da sociedade capitalista. Ele argumenta que a razão autêntica deve procurar transformar a sociedade, promovendo uma prática revolucionária que altere as condições materiais e as relações sociais. Esse trabalho também destaca a importância da negatividade dialética, um conceito que Marcuse retoma para criticar a tendência da razão tecnológica moderna de eliminar a contradição e o conflito em favor de uma ordem homogénea. 

Marcuse foi um crítico fervoroso do que ele via como as patologias sociais e psicológicas do capitalismo. Ele acreditava que a transformação social necessária para superar essas patologias exigiria uma revolução radical tanto na infraestrutura económica quanto nas superestruturas culturais e psicológicas da sociedade. A sua noção de “necessidades falsas” — necessidades criadas e impostas pelo sistema capitalista que sustentam os padrões de consumo e trabalho alienante — é fundamental para entender a sua crítica ao consumo como um pilar da sociedade capitalista. 

Marcuse via na arte e na estética meios potenciais de resistência e subversão. Ele considerava que a arte autêntica poderia oferecer visões de liberdade e felicidade que desafiam as normas existentes, abrindo espaços para novas possibilidades de ser e de relacionamento. Este aspeto da sua teoria oferece uma ponte entre a crítica social negativa e a visão de uma utopia positiva, que ele explorou em diversos escritos ao longo da sua carreira.

A relevância do pensamento de Marcuse hoje pode ser observada na continuidade das críticas à sociedade de consumo, à passividade política e à perda de potenciais libertadores na cultura contemporânea. O seu legado permanece influente nas teorias críticas da sociedade, nas discussões sobre a emancipação humana e nos debates sobre como a tecnologia molda as relações sociais e pessoais. Marcuse convida a questionar as estruturas de poder existentes e a imaginar formas alternativas de organização social que verdadeiramente valorizem a realização humana e a liberdade. 

O Homem Unidimensional

“O Homem Unidimensional” é uma obra influente do filósofo Herbert Marcuse, publicada em 1964. Este livro oferece uma análise crítica da sociedade capitalista avançada, na qual Marcuse argumenta que o sistema tecnológico e administrativo contemporâneo cria uma forma de racionalidade que é unidimensional, limitando a capacidade de crítica e oposição dos indivíduos.

Marcuse explora como essa sociedade promove a conformidade e a homogeneização através da tecnologia, da cultura e da política, reduzindo a complexidade das experiências humanas a uma única dimensão de pensamento e comportamento. Essa condição, segundo ele, é profundamente alienante, pois impede o desenvolvimento de potenciais individuais que não se alinham aos valores e necessidades do sistema capitalista.

Ele também critica o papel dos meios de comunicação de massa, que considera instrumentos de controlo social, promovendo um tipo de pensamento que favorece o status quo. Marcuse argumenta que, nesse contexto, a cultura torna-se uma mercadoria, e o seu consumo substitui o sentido crítico.

A ideia de ‘tolerância repressiva’ é central no livro, onde Marcuse sugere que a sociedade moderna tolera uma variedade de comportamentos e ideias, mas de forma a neutralizá-los, evitando mudanças significativas. Assim, a tolerância transforma-se num instrumento de dominação, uma vez que as ideias que realmente desafiam o sistema são marginalizadas ou deslegitimadas.

A crítica de Marcuse estende-se ao sistema educacional, que ele vê como um meio de perpetuação da unidimensionalidade, formando indivíduos que se encaixam perfeitamente nas exigências do mercado de trabalho e do consumo, em vez de fomentar pensamento crítico e inovação autêntica.

Citação do texto: João FERREIRA DIAS, “O pensamento de Herbert Marcuse,” acessado a 26 Maio, 2024, in: <https://www.joaoferreiradias.net/6591/>.


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